dragões de jorge
   
 
 

  Histórico

    Votação
     Dê uma nota para meu blog

    Outros sites
     ao fim da noite
     tom waits
     céline
     richard brautigan
     guardanapo de buteco
     pixação virtual




     

     
     

    ligação direta
    “vem comigo que no caminho eu explico”
    cazuza
    em comigo que no caminho eu explicouses do parnaso industrial.
     
    vem dançar comigo com máscara de gás e fones de ouvido. traga uma rosa vergana de plástico cheirando a beijo de língua, um lança-chamas, uma frase de efeito delirante que me faça ficar sem fôlego, que me faça voar.
    vamos fugir da transcendência com os dentes sujos de sangue e estrelas nos cabelos. não diga que me ama e nem que me odeia. olhe apenas as fotos do satélite e não se preocupe com os mortos na área de serviço.
    grite alto, morda meus mamilos, invente acrobacias e vamos entrar nas livrarias e incendiar poetas e livros.

    olhe bem os mortos, respire fundo o oxigênio corrosivo e me diga o gosto do sangue quando esfria.
    tenho uma bala de prata e outras coisas delicadas e letais no fundo do bolso do paletó. tenho muita merda na cabeça e corrosões dentro do peito, mas você vai adorar meus óculos escuros no centro da claridade fria.
    vamos deslizar pelas vernissages, pelos ambientes refrigerados e deixar os ratos salivando.
    sou apenas um cara instalado em seu bloco de gelo e você é a minha garota acrílica. estamos indo na direção da tempestade elétrica: quem pode nos apagar?

     



    Escrito por jorge mendes às 18h47
    [] [envie esta mensagem
    ] []


     

     

    letra morta



    na minha batalha contra o mundo
    eu apoio o mundo.
    kafka

     

     

    não era o céu, não era a lua nem o rio de janeiro. era pra fugir da tempestade e ir morrendo aos pingos. era pra ser o sol nas cortinas, vasinho de plantas na área de serviço e não fúria dos becos. relâmpagos.

     

    não era beijo de língua. abismo. não era pra ser angústia, desespero e solidão. era pra ser frase feita de barzinho existencialista, olhares lânguidos, uma lance sujo e duas doses abaixo.

     

    horizonte algum.

     

    era pra ser indiferença, janela do décimo andar, controle-remoto, tecnologia e todo o lixo. era pra ser virtual e não sangue, esperma e saliva. não era kant. era kardec. não era lou reed. era mtv. era século 17, amor romântico, paisagem de sal, medo de voar e veludo.

     

    não era bílis no banheiro sujo, madrugadas e avenidas vazias. não era paulo leminski. não era poesia. não era cachaça no boteco da esquina. era suco de clorofila, máscara, mentiras.

     

    vídeo-clip.

     

    era pra ficar quieto, natimorto, com um sorriso cínico no rosto de cachorro otário, otário.

     


    não era michel foucault. era só vigiar e punir. não era pra ser sede de azuis cortantes, fome de ruas, vôo e queda livre. não era pra ser friedrich nietzsche e cair dançando. era pra ser culpa, dissimulação. não era a estrela do futuro era o amor virado com a cara pra parede. não era o verbo encantado do torquato. era silêncio, o frio dos desertos.

     

    não era álcool forte era café.

     

    se liga, não era desejo, gozo, o impossível. era ioga, homeopatia. também não era itamar assumpção, jacques lacan, derrida. era pra ser gelo, teatro de rua, comédia infanto-juvenil pra boi dormir. era pra ser nenhum problema com as esquinas, nenhum fogo no labirinto dos olhos, nenhum incêndio na ponta da língua.

     

    escuta: não era à deriva. era fixo no mesmo lugar.

     

    era pra ser ilha de edição e não multidão, primeira do plural. era umbigo e não coletivo. era pra ser narciso e não espelho quebrado. nenhum grito de sganzerla, nenhum grilo. fade. era pra ser passivo. limo. cadáver se alimentando de flores de plástico e artes práticas. era pra ser masturbação e não língua na nuca, dente na carne, sangue, gozo aéreo.

     

    era pra ser zibia gasparetto e não ferdinand céline.

     

    quer saber, era pra terminado a pós e não viajado pru nordeste. era pra ter ficado rico, loiro. era pra ter virado zumbi. não era pra morder a maçã nem ter encarado os olhos da serpente. era pra doar sangue na agência bancária mais próxima. era pra ser filhodaputa até quando diz obrigado ou eu te amo. era pra ter merda no coração e ser o rei da galera, idiota.

     

    não era rimbaud, entenda.

     

    era concurso público. o assassinato da flor. sociedade anônima. não era pra ser erro constante, negro gato na chapa. era pra ser deus da tribo, mercadoria. não era pra ser pulso aberto, soul, samba de cartola. era pra ser circo, ópera bufa.

     

    e, sobretudo, não era pra ser literatura, jorge.



    Escrito por jorge mendes às 23h13
    [] [envie esta mensagem
    ] []


     

     

    tem algo fedendo dentro da geladeira e é o seu coração



    “que só eu que podia, na sua orelha fria, dizer segredos de liquidificador”
    cazuza

     

    não é a lua. é o amor no cubo de gelo. restos de estrelas no jarro de flores e inverno nos seus olhos de pombos mortos procurando horizontes que não cabem mais em suas mãos.

    você fez merda, mulher.

    e eu tinha um beijo mágico na próxima esquina. havia preparado ventos, ervas, chuvas, vinho e fogo alto debaixo dos cobertores.

    então não é o fim da linha mas o começo da solidão.

    quer dizer, existe uma lógica: você voa ou vai pru saco. então quando eu disse pedra era pra criar asas. quando você colocou na boca era pra engolir.

    você não entendeu.

    aprende: no paraíso a  gente solta os cabelos e daí a terra treme.

    (que horror ver sua sombra virar plástico logo na segunda-feira pela manhã).

    foi assim: quando eu abracei seu corpo na tempestade não havia ninguém lá e isso foi foda porque você era nuvem, oceano, substância aérea por onde minha língua e dedos passeavam e abriam caminho pru meu pau mergulhar de cabeça, de corpo inteiro.

    agora, só fundo oco, cadáver embalado a vácuo. que bosta.

    quero dizer, você já sente o cheiro adocicado dos corpos que apodrecem diante da tv? sente o perfume triste das flores cobertas de sangue e vazio?

    então, a partir de agora, você será como uma doença de pele, uma doença incurável que terei de aprender a conviver. uma carne sem vida, sem luz, congelada dentro do freezer que algum demônio irá fatiar e me servir mal passada dentro de um pesadelo que começa com o seu nome que é frio frio frio.



    Escrito por jorge mendes às 15h52
    [] [envie esta mensagem
    ] []


     

     

    capotando na quebrada

     “às vezes os atalhos são mais longos que as estradas”

    burroughs

     

    passei batido. mas não foi por isso que aderi as curvas fechadas e nem aos duplos de vodca. nada disso. ocorreram outros lances nos declives.

    - pelo retrovisor vi todos os sonhos do futuro se perderem no vácuo.

    quer dizer, passei a conduzir meus passos pra curva sombria, ali onde ocorre o derrapamento e se pula pra fora da pista.

    sem dúvida isso tem a ver com as esquinas mais que suspeitas, chupadas no escuro beco, barbitúricos – conversíveis brancos queimando combustível neural -, e a todos os meses depois de janeiro estudando as pontas dos dedos.

    one way, digamos.


    certamente foi a lua (essa puta que só me faz de otário) que me desgastou as solas do sapato, me fez rodar na contramão e embaçou a visibilidade a meio quilometro do fim.

    o fato é que por mais uma vez me atrasei durante o vôo.

    agora os caquinhos do dia seguinte. sangue nos destroços. o farol baixo das certezas aderentes.

    claro, conheço o circuito fechado dos bares desertos: estradas flutuantes, ruas ninfomaníacas, encruzilhadas robert johnson. sei. já vi.

    segui derrapando, contudo. um gingado torto com os quatro pneus arreados e muito álcool no tangue, é vero.

    bodei no beco até atingir a neblina densa dos precipícios (sem contar as vezes que morri sangrando no asfalto e/ou me rebocaram do bar).

    atolei na descida, evidente.

    perdi os freios, todavia.

    então o roteiro ou mapa do inferno é o seguinte: você desce pela marginal, rodopia nos trilhos, dá o arranque e avança de ré rumo a lugar nenhum.

    no tráfico, irmão.

     



    Escrito por jorge mendes às 02h06
    [] [envie esta mensagem
    ] []


     

     

    como uma novela das oito

    a maior e mais brutal violência contra as mulheres
    é exatamente fazê-las acreditar que são apenas mulheres

    foucault

    o que estava errado com marilucy era o mesmo que estava errado com cerca de 99% da população feminina mundial (isso porque é sempre necessário guardar uma dama de copas na manga): olhar sem fúria, igreja católica e august comte. essa mistura é fatídica. provoca paralisia cerebral irreversível. o coração vira bombom estragado e você só consegue pensar merda depois disso.

    eu entendia o processo.

    o negócio é que no seu mundinho frio marilucy construiu sua ilha de unhas pintadas de vermelho vamp e escova japonesa (seis horas na manicure, na boa), calcinhas de renda negra, cabelos de propagandas de xampu, voz de elymar santos e santíssima trindade, ela era feliz assim. quer dizer, os aparelhos ideológicos do estado, as agências totais de socialização e todos os mecanismos de repressão da sagrada família conseguiram limpar todo o cérebro de marilucy. ela estava limpa como um salão fúnebre. a vida não possuía qualquer nódoa de tesão e mistério: uma casa mobiliada e asséptica, um marido - maridão romântico, cafajeste e canalha, claro - (trepadas homeopáticas com luzes apagadas, sob o cetim) e programas do raul gil aos domingos. a vida, assim, era mais do que perfeita. era insossa e terrivelmente segura.

    então marilucy falava: "você não é romântico, nunca me mandou rosas, nunca me carregou no colo, nunca diz que me ama!", e eu concordava balançando a cabeça. isto é, como todo desesperado que precisa urgentemente se agarrar a alguma coisa, a estupidez também me enternecia. daí nos momentos de lirismo compulsivo, eu chamar marilucy de "minha macabéa". ela se irritava. tinha certeza que a tal clarice lispector era minha amante. ficava puta, a cretina.

    a minha salvação, como não poderia deixar de ser, foi um príncipe encantado.

     

     

    ocorre que marilucy - isso às custas dos programas de rádio am, hebe camargo, ofertas do pão de açúcar e manhãs putrefatas com ana maria braga - cultivava a memória de um príncipe morto no passado.

    então marilucy me comparava ao seu príncipe com rosto de fábio assunção: "ele não era assim encucado como você! não vivia lendo livros que ninguém entende! não perdia tempo escrevendo besteiras sem sentido e nem falava palavras complicadas de dicionário! ele sim me pegava no colo e dizia que me amava!", e eu via o pássaro empalhado dos sonhos de marilucy ficar batendo suas asinhas de glacê mármore pelo quarto.

    a minha esperança era que o tal príncipe levasse marilucy pra sua floresta de florzinhas de plástico, anjinhos de porcelana, toalhinhas bordadas sobre os móveis, bichinhos de pelúcia, rosários e pôster do padre marcelo na cabeceira da cama, ela merecia isso.

    num final de tarde marilucy apareceu toda arrumada. ela havia reencontrado o seu príncipe. ele estava casado mas se sentia infeliz com a esposa. precisava desabafar com alguém e, por isso, havia convidado marilucy para o baile daquela noite (“sabe, jorge, gosto de você. mas você é muito esquisito, estranho e, pra ser sincera, só fiquei com você por causa do desenho da sua boca que é muito linda. bem, adeus”, ela me disse sem olhar nos meus olhos). “beleza!”, pensei fazendo cara de boi lavado.

    quero dizer, fiz a cena da despedida no melhor estilo de stanilaswisk, isto é, com todos os sentimentos aflorados e sob controle. o pessoal da central globo de produções ficaria boquiaberto com minha performance, pode crer.

    depois marilucy foi embora e tranquei cuidadosamente a porta. abri uma cerveja, acendi um cigarro, deitei na cama e fiquei fazendo bolinhas de fumaça contra o teto: "fodidos de todo o mundo, uni-vos!", falei sozinho, erguendo minha latinha de cerveja pru o alto, tão alegre e idiota como o último capítulo de um patético final feliz.



    Escrito por jorge mendes às 12h59
    [] [envie esta mensagem
    ] []


     

     

    enquanto ela dorme

     

    abra os olhos, meu amor, que o sonho está aqui em nossas mãos

    torquato neto

     

    enquanto ela dorme, eu me desespero. tenho medo, enquanto ela dorme. penso nos gritos dentro dos filmes do sganzerla e fico mudo, suando frio, tentando não fazer barulho, enquanto ela dorme.

     

    será que ela sonha que é bel pel, sereia do apocalipse, mulher de todos e devora o pai, cavalga unicórnios de crinas brancas e oníricas e me esconde atrás do oceano enquanto dorme?

     

    uiva o cão na rua escura, enquanto ela dorme. o apartamento me encara com suas paredes amarelas e miro o chão sujo, branco, quadrilátero e sinto medo do tempo ali parado, enquanto ela dorme.

     

    de manhã ela se agitou e ficou voando alto durante horas. depois dormiu. eu não sossego, quer dizer, não tenho sossego. não consigo fechar os olhos e olho para o corpo de flor e onda branca que ela ondulou sobre o meu antes de adormecer e toco no meu pau e penso obscenidades, enquanto ela dorme.

     

    ela não sabe, mas não desejo a morte igual do amor. sou impuro, sujo e quadrilátero como o chão do apartamento. sou severo e idiota o bastante para continuar vivo, trancado aqui com ela nesse apartamento com suas paredes amarelas e as persianas negras, enquanto ela dorme.

     

     

    hoje, por exemplo, choveu por detrás das persianas negras. fiz comida, ela buscou a bebida. o sol se esparramou um pouco sobre os lençóis do sofá-cama. então não preciso morrer agora, posso encarar o medo porque ela tem esse ar de senhora de tudo com cabelos revoltos e manchas vermelhas no rosto de menina selvagem, enquanto dorme.

     

    não é um sonho, não pode ser um sonho e nem será. a coisa entre eu e ela tem outro nome que se revela causando estragos de luz e outras doces catástrofes. mas também não é isso, quero dizer, são filmes em preto e branco, uma marginália. uma sede, uma fome e nada que satisfaça o apetite.

    ela dorme, é fato.

     eu me desespero, é fato.

     

    meus olhos estão abertos. não dormem. não sonham. só olham, enquanto ela dorme.

     

    ainda é cedo. tarde demais.

     

    mas é irreversível: uma hora ela acorda.



    Escrito por jorge mendes às 03h32
    [] [envie esta mensagem
    ] []


     

     

    o projeto palavra-porrada publicou ícaro no labirinto e suíte 21, dois poemas meus. é só dá o confere aqui http://palavraporrada.blogspot.com/



    Escrito por jorge mendes às 11h42
    [] [envie esta mensagem
    ] []


     

     

    febre

     

    “eu fico com essa dor

    e a vontade de não ser”

    luis melodia

     

     

    a febre do mundo me pegou, dragões. vê essas mãos? são minhas. duas. na ponta dos dedos unhas, luas, eletricidade.

     

    o céu debaixo dos pés, dragões.

     

    quero dizer, não vou voar. vou solar o asfalto. também não vou amar aos pingos. vou morder o desejo com dentes de mar em fúria e gritar acordando náufragos, cães, viúvas.

     

    a febre do mundo me pegou, dragões.

     

    um planeta feroz aqui no peito. uma dor que não vai passar nem com beijinhos de nina e doses e mais doses de conhaque e asfalto quente em todas as esquinas.

     

    ocorre, dragões, que me apaixonei pelas pedras, pela minha doce paranóia, pela música cáustica que vem do fundo do abismo. por isso esse olhar na tempestade, dragões.

     

    isto é, o amor não vem e, quando vem, faz doer, quer ser espelho, novelinha rodriguiniana e eu só quero leminski, intensidade, acelerar na curva. dentro do túnel saborear a cor vermelha.

     

     

    a febre do mundo me pegou, dragões.

     

    daí a vontade de não ser. de mastigar o mundo. de amar incondicionalmente o infinito breu. vontade de desaparecer na ácida bruma. ser ninguém, me dissolver no ébrio beijo da noite aflita.

     

    então deixa sangrar, dragões.

     

    deixa o vagabundo coração seguir pelas ruas farejando putas e assassinos e anjos entorpecidos pelo álcool forte da madrugada indomável: sombras nos muros, tempestades de sal, escadas rolantes, metrô, fumaça tóxica e a luz do meio-dia me alimentando de incêndios e avenidas.

     

    a febre do mundo me pegou, dragões.

     

    vê esses olhos negros na luz acrílica da manhã? esse áspero olhar de tristeza indissolúvel? 

     

    são meus.

    vai encarar?    



    Escrito por jorge mendes às 23h25
    [] [envie esta mensagem
    ] []


     

     

    solo em sol pra garota do abismo

     

     

    apóie sua cabeça

    onde meu coração costumava estar

    e segure a terra abaixo de mim

    tom waits

     

     

     

     

    puxe-me para o alto, garota do abismo. sou um pássaro espantalho com um grilo falante gritando frases de fogo de rimbaud as quatro e meia da madrugada dentro da minha cabeça e esses sete mil demoniozinhos trabalhando duro e fazendo a festa dia e noite aqui no peito.

     

    e você queima os alicerces, garota do abismo.

     

    seu olhar de eletricidade e fúria fura as paredes dos apartamentos e há um silêncio quente na palma da sua mão que paralisa aviões, pássaros e assassinos em pleno vôo.

     

    então exorciza meus cabelos no inferno. faz derreter os extintores dos prédios centrais com apenas um sorriso de gelo moído e garoa paulistana e me ame com força e destruição dentro dos elevadores, nas esquinas, nas escadas rolantes, no quarto escuro do hotel paraíso.

     

    básico instinto na tequila evaporada, garota do abismo.

     

    isto é, quero você no núcleo do meu medo: nua, suada, louca, irreversível, gritando meu nome dentro da madrugada imóvel. quero que você me ensine a dançar sobre as brasas, garota do abismo, e que ria, gargalhe na minha cara de cachorro otário se eu quiser voar com minhas botas e meias parnasianas pelo seu céu de ácidas nuvens rubras.

     

    - vamos deslizar descalços pelo sangue dos heróis, garota do abismo.

     

    você sabe, eu não quero nenhum modelo de paz & felicidade no cartão com juros baixos daqui a trinta dias. não quero cultura medieval nem malabares. não quero deus nem do oriente nem do ocidente (sou mais os demônios do tibet). não quero semiótica. não quero a lua enamorada e nem outra bosta mediática século 18 fazendo sombra na nossa onda. quero é sua frase violenta contra os rochedos, esse dulcíssimo punhal que você trás na língua e o seu corpinho de pêssego corrosivo que explode estrelas e faz tremer oceanos.

     

    o resto deixa comigo, garota do abismo.

     

    quero dizer que estou a-bo-ba-da-men-te apaixonado e pedindo que me livre dos garotos maus com suas hemorróidas e mixórdias do subsolo, das gatinhas manhosas da bad trip com lápis preto delineando olhos de açúcar vomitivo e tatuagens tribais nas ancas gelatinosas. distância, garota do abismo, dos embusteiros com suas proparoxítonas de flores de plástico e oficinas literárias e blues da piedade.

     

    quero a gente desconexos e leros boleros tangos e outras delícias e isso quer dizer sérgio sampaio ou me leve pru inferno, garota dos abismo.

     

    deixe-me adormecer no meio das suas coxas de sal e tempestade abrupta, morder devagar e minuciosamente os mamilos carnudos como dois frutos proibidos e gozar na sua agonia de menina selvagem, por enquanto.

     

    eu sei, garota do abismo, que não acreditamos na suavidade dos tons róseos e nem no amor como forma de apodrecimento e tudo que eu tenho 80% será seu incondicionalmente (só preciso dos 20% restantes para o caso de emergência, você sabe), o resto a gente inventa sangrando ou fazendo chover ou se divertindo com os incêndios.

     

    então para o trapézio agora, garota do abismo!

     

    vamos pular, claro.

     

    eu primeiro? você primeiro? nós dois juntos?

     

    você diz 1 e eu digo no 1 a gente dá 2 e no 3 a gente sarta de banda,

     

    dançando.

     

    pru alto, garota do abismo.

     

    beleza?

     

     

     

     



    Escrito por jorge mendes às 13h12
    [] [envie esta mensagem
    ] []


     

     

    amor e restos humanos

     

     

     

    “eu quero andar nas ruas da cidade

    agarrado contigo, agarrado contigo”

    itamar assumpção

     

     

    existe a cidade. isto é, uma linha de fuga fazendo sombra e escombros entre nós dois.

     

    e a gente caminha.

     

    às vezes no mesmo passo. às vezes sombras no muro. às vezes disfarçados de zumbis entre os zumbis.

     

    inverossímeis, sempre.

     

    quero dizer que ela é pintura barroca inflamável feita de ar radioativo que incendeia e corrói por dentro e eu sou canceriano (carioca/mineiro/pernambucano), ou seja, maracatu atômico, samba distorcido, pinga com torresmo de estômago vazio e sangue voador em ebulição.

     

    chuva forte dentro da noite, vapor elétrico e mar em fúria é a nossa onda, portanto.

     

    tem dias, por exemplo, que ela fica bela adormecida dentro do porta-retratos (mas isso é só pra constar nos autos, eu sei). às vezes sou eu quem mergulha no abismo em busca de azuis infernais, só pra não deixar barato, ela sabe.

     

    o tempo é o nosso principal inimigo convidado e é por causa dele que eu morro em cada esquina e ela – linda e cheia de malícia - passeia de mãos dadas com heróis assassinos.

     

    - a gente sangra e gargalha e dança entre os punhais.

     

    ocorre que entre nossos lábios existe um pacto de beijos e febres e palavras elétricas que causam calafrios. mas não há sinal de dor ou medo em nossos passos dentro do labirinto das ruas.

     

    é que ela tem um planetinha vermelho pulsando entre as pernas e eu bebo conhaque presidente com estrelas e corais subaquáticas quando mergulho em seu corpo de oceano sem fundo e fico gravitando em torno de sua órbita bêbada.

     

    quente quente quente.

     

    seria inútil amar seus cabelos assimétricos, curtos, vermelhos na ventania ou ela me pedir pra não morrer dentro das manhãs de gelo e papel laminado.

     

    somos só desejo e torpor.

     

    o certo é que odiamos coentro e artistas plásticos e amanhecemos líricos entre os canibais (e ainda cantamos: “senhor, piedade, pra essa gente careta e covarde” e ela desafina de propósito só porque ela é foda e eu adoro a voz de vidro moído dela quando ela diz: “o impossível, jorge!”).

     

    somos-juntos-separados-colados-um-no-outro feito poesia concreta. somos bala do sol na neblina ácida das avenidas, doce vapor da lua (toda nua toda nua), uma dor que não dissimula, uma alegria sem polícia e uma sede, uma fome, um sono e nada que nos sacie o apetite.

     

    talvez, porque é mulher, perversa e rainha do mal, ela vá me assassinar a dentadas antes da manhã seguinte. por ser homem, estúpido símio, eu a deixe partir na madrugada fria dos otários da verdade absoluta.

     

    não sabemos. não queremos nem saber. não temos planos. estamos começando pelo fim e incendiamos todos os mapas e o paraíso, inclusive.

     

    por ela sou agora o deus das tempestades e deixo que ela desenhe meu rosto, meu pau, meus passos, meus sonhos, com relâmpagos e raios coloridos e faça do meu olhar um futuro veloz.

     

    porque o que sobra de tudo, de todos, de nós dois, será sempre só amor e restos humanos.

     

    vãmbôra.



    Escrito por jorge mendes às 20h33
    [] [envie esta mensagem
    ] []


     

     

    até parece que a vida luta kung-fu comigo

     

    “eu não posso causar mal nenhum, a não ser a mim mesmo”

    cazuza

     

    quer saber, dragões, vocês soltam fogo pela boca. acontece, que eu incendeio pelo olhos. é assim: tem gente que pede fogo e tem gente que incendeia (cigarro? leva o maço!) e eu ouço screamin´jay hawkins, wander wildner e claudinho e bochecha. aliás, “controlo o calendário sem utilizar as mãos”.

     

    danço e sangro, dragões.

     

    conheço o esqueminha sujo, o lance sórdido, a palavra bruta. quer dizer, vocês, dragões, mandam demandas de falsos amores congelados a vácuo, me derrubam na lona com apenas um olhar zero grau celsius e eu só no boteco da esquina, na 51 pura no balcão, mastigando estrelas e lábios que são frios frios frios.

     

    escuta dragões, sei que ninguém resiste a luz de perto, que o golpe é abaixo da cintura e que a escuridão pro-li-fe-ra. mas vocês não conhecem meus óculos escuros e nem o punho do poeta quando chega a hora da neblina.

     

    claro, há algo inimigo no ar e o meu coração rangendo os dentes entre as quatro paredes. porém, isso não significa que os ratos e as sereias do futuro vão me ganhar na próxima esquina.

     

    nem fodendo, dragões.

     

    sabe o que é dragões, eu decepciono por prazer, apavoro. não tenho sossego, não sossego e choro sozinho na madrugada do estacionamento do hipermercado. é verdade: preciso de eletrochoques, beijos elétricos que façam parar de chover e de alguém do sexo feminino de cabelos curtos e olhos de fogo que me ame com febre e horror.

     

    eu sei, dragões, vocês tem asas, plumas, escamas, poderes mágicos e hálito de fogo. mas eu caminho pela rua do desejo dragões, não tenho medo de morrer na noite escura de um beijo e além do mais são paulo é outra coisa.

     

    isto é, “eu não me amo: eu me persigo”, dragões.

     

     

    quer saber dragões, eu não esquento o prato, não faço o passo da garça, não me pinto de palhaço, não tenho pérolas nem padedês na ponta da língua e nem vomito arco-íris. eu raspo a caro no fundo, falo alto coisas cruéis e não me importo que a vida solte os cachorros atrás de mim.

     

    claro, dragões, morro de medo (mas o medo nunca me deu medo) sou todo confuso, inseguro, indeciso e nada objetivo e os espertos da vida homeopática sempre me dizem isso e fico dando risadas porque sei que de onde estou vindo ninguém ainda saiu vivo.

     

    então, pode bater forte, pode machucar o coração, pode vir quente, pode vir fervendo, que eu  evaporo.

     

    só love, dragões, só love.

     



    Escrito por jorge mendes às 10h49
    [] [envie esta mensagem
    ] []


     

     
    [ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]