dragões de jorge
   
 
 

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    amor e restos humanos

     

     

     

    “eu quero andar nas ruas da cidade

    agarrado contigo, agarrado contigo”

    itamar assumpção

     

     

    existe a cidade. isto é, uma linha de fuga fazendo sombra e escombros entre nós dois.

     

    e a gente caminha.

     

    às vezes no mesmo passo. às vezes sombras no muro. às vezes disfarçados de zumbis entre os zumbis.

     

    inverossímeis, sempre.

     

    quero dizer que ela é pintura barroca inflamável feita de ar radioativo que incendeia e corrói por dentro e eu sou canceriano (carioca/mineiro/pernambucano), ou seja, maracatu atômico, samba distorcido, pinga com torresmo de estômago vazio e sangue voador em ebulição.

     

    chuva forte dentro da noite, vapor elétrico e mar em fúria é a nossa onda, portanto.

     

    tem dias, por exemplo, que ela fica bela adormecida dentro do porta-retratos (mas isso é só pra constar nos autos, eu sei). às vezes sou eu quem mergulha no abismo em busca de azuis infernais, só pra não deixar barato, ela sabe.

     

    o tempo é o nosso principal inimigo convidado e é por causa dele que eu morro em cada esquina e ela – linda e cheia de malícia - passeia de mãos dadas com heróis assassinos.

     

    - a gente sangra e gargalha e dança entre os punhais.

     

    ocorre que entre nossos lábios existe um pacto de beijos e febres e palavras elétricas que causam calafrios. mas não há sinal de dor ou medo em nossos passos dentro do labirinto das ruas.

     

    é que ela tem um planetinha vermelho pulsando entre as pernas e eu bebo conhaque presidente com estrelas e corais subaquáticas quando mergulho em seu corpo de oceano sem fundo e fico gravitando em torno de sua órbita bêbada.

     

    quente quente quente.

     

    seria inútil amar seus cabelos assimétricos, curtos, vermelhos na ventania ou ela me pedir pra não morrer dentro das manhãs de gelo e papel laminado.

     

    somos só desejo e torpor.

     

    o certo é que odiamos coentro e artistas plásticos e amanhecemos líricos entre os canibais (e ainda cantamos: “senhor, piedade, pra essa gente careta e covarde” e ela desafina de propósito só porque ela é foda e eu adoro a voz de vidro moído dela quando ela diz: “o impossível, jorge!”).

     

    somos-juntos-separados-colados-um-no-outro feito poesia concreta. somos bala do sol na neblina ácida das avenidas, doce vapor da lua (toda nua toda nua), uma dor que não dissimula, uma alegria sem polícia e uma sede, uma fome, um sono e nada que nos sacie o apetite.

     

    talvez, porque é mulher, perversa e rainha do mal, ela vá me assassinar a dentadas antes da manhã seguinte. por ser homem, estúpido símio, eu a deixe partir na madrugada fria dos otários da verdade absoluta.

     

    não sabemos. não queremos nem saber. não temos planos. estamos começando pelo fim e incendiamos todos os mapas e o paraíso, inclusive.

     

    por ela sou agora o deus das tempestades e deixo que ela desenhe meu rosto, meu pau, meus passos, meus sonhos, com relâmpagos e raios coloridos e faça do meu olhar um futuro veloz.

     

    porque o que sobra de tudo, de todos, de nós dois, será sempre só amor e restos humanos.

     

    vãmbôra.



    Escrito por jorge mendes às 20h33
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    até parece que a vida luta kung-fu comigo

     

    “eu não posso causar mal nenhum, a não ser a mim mesmo”

    cazuza

     

    quer saber, dragões, vocês soltam fogo pela boca. acontece, que eu incendeio pelo olhos. é assim: tem gente que pede fogo e tem gente que incendeia (cigarro? leva o maço!) e eu ouço screamin´jay hawkins, wander wildner e claudinho e bochecha. aliás, “controlo o calendário sem utilizar as mãos”.

     

    danço e sangro, dragões.

     

    conheço o esqueminha sujo, o lance sórdido, a palavra bruta. quer dizer, vocês, dragões, mandam demandas de falsos amores congelados a vácuo, me derrubam na lona com apenas um olhar zero grau celsius e eu só no boteco da esquina, na 51 pura no balcão, mastigando estrelas e lábios que são frios frios frios.

     

    escuta dragões, sei que ninguém resiste a luz de perto, que o golpe é abaixo da cintura e que a escuridão pro-li-fe-ra. mas vocês não conhecem meus óculos escuros e nem o punho do poeta quando chega a hora da neblina.

     

    claro, há algo inimigo no ar e o meu coração rangendo os dentes entre as quatro paredes. porém, isso não significa que os ratos e as sereias do futuro vão me ganhar na próxima esquina.

     

    nem fodendo, dragões.

     

    sabe o que é dragões, eu decepciono por prazer, apavoro. não tenho sossego, não sossego e choro sozinho na madrugada do estacionamento do hipermercado. é verdade: preciso de eletrochoques, beijos elétricos que façam parar de chover e de alguém do sexo feminino de cabelos curtos e olhos de fogo que me ame com febre e horror.

     

    eu sei, dragões, vocês tem asas, plumas, escamas, poderes mágicos e hálito de fogo. mas eu caminho pela rua do desejo dragões, não tenho medo de morrer na noite escura de um beijo e além do mais são paulo é outra coisa.

     

    isto é, “eu não me amo: eu me persigo”, dragões.

     

     

    quer saber dragões, eu não esquento o prato, não faço o passo da garça, não me pinto de palhaço, não tenho pérolas nem padedês na ponta da língua e nem vomito arco-íris. eu raspo a caro no fundo, falo alto coisas cruéis e não me importo que a vida solte os cachorros atrás de mim.

     

    claro, dragões, morro de medo (mas o medo nunca me deu medo) sou todo confuso, inseguro, indeciso e nada objetivo e os espertos da vida homeopática sempre me dizem isso e fico dando risadas porque sei que de onde estou vindo ninguém ainda saiu vivo.

     

    então, pode bater forte, pode machucar o coração, pode vir quente, pode vir fervendo, que eu  evaporo.

     

    só love, dragões, só love.

     



    Escrito por jorge mendes às 10h49
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