dragões de jorge
   
 
 

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    enquanto ela dorme

     

    abra os olhos, meu amor, que o sonho está aqui em nossas mãos

    torquato neto

     

    enquanto ela dorme, eu me desespero. tenho medo, enquanto ela dorme. penso nos gritos dentro dos filmes do sganzerla e fico mudo, suando frio, tentando não fazer barulho, enquanto ela dorme.

     

    será que ela sonha que é bel pel, sereia do apocalipse, mulher de todos e devora o pai, cavalga unicórnios de crinas brancas e oníricas e me esconde atrás do oceano enquanto dorme?

     

    uiva o cão na rua escura, enquanto ela dorme. o apartamento me encara com suas paredes amarelas e miro o chão sujo, branco, quadrilátero e sinto medo do tempo ali parado, enquanto ela dorme.

     

    de manhã ela se agitou e ficou voando alto durante horas. depois dormiu. eu não sossego, quer dizer, não tenho sossego. não consigo fechar os olhos e olho para o corpo de flor e onda branca que ela ondulou sobre o meu antes de adormecer e toco no meu pau e penso obscenidades, enquanto ela dorme.

     

    ela não sabe, mas não desejo a morte igual do amor. sou impuro, sujo e quadrilátero como o chão do apartamento. sou severo e idiota o bastante para continuar vivo, trancado aqui com ela nesse apartamento com suas paredes amarelas e as persianas negras, enquanto ela dorme.

     

     

    hoje, por exemplo, choveu por detrás das persianas negras. fiz comida, ela buscou a bebida. o sol se esparramou um pouco sobre os lençóis do sofá-cama. então não preciso morrer agora, posso encarar o medo porque ela tem esse ar de senhora de tudo com cabelos revoltos e manchas vermelhas no rosto de menina selvagem, enquanto dorme.

     

    não é um sonho, não pode ser um sonho e nem será. a coisa entre eu e ela tem outro nome que se revela causando estragos de luz e outras doces catástrofes. mas também não é isso, quero dizer, são filmes em preto e branco, uma marginália. uma sede, uma fome e nada que satisfaça o apetite.

    ela dorme, é fato.

     eu me desespero, é fato.

     

    meus olhos estão abertos. não dormem. não sonham. só olham, enquanto ela dorme.

     

    ainda é cedo. tarde demais.

     

    mas é irreversível: uma hora ela acorda.



    Escrito por jorge mendes às 03h32
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