dragões de jorge
   
 
 

  Histórico

    Votação
     Dê uma nota para meu blog

    Outros sites
     ao fim da noite
     tom waits
     céline
     richard brautigan
     guardanapo de buteco
     pixação virtual




     

     
     

    como uma novela das oito

    a maior e mais brutal violência contra as mulheres
    é exatamente fazê-las acreditar que são apenas mulheres

    foucault

    o que estava errado com marilucy era o mesmo que estava errado com cerca de 99% da população feminina mundial (isso porque é sempre necessário guardar uma dama de copas na manga): olhar sem fúria, igreja católica e august comte. essa mistura é fatídica. provoca paralisia cerebral irreversível. o coração vira bombom estragado e você só consegue pensar merda depois disso.

    eu entendia o processo.

    o negócio é que no seu mundinho frio marilucy construiu sua ilha de unhas pintadas de vermelho vamp e escova japonesa (seis horas na manicure, na boa), calcinhas de renda negra, cabelos de propagandas de xampu, voz de elymar santos e santíssima trindade, ela era feliz assim. quer dizer, os aparelhos ideológicos do estado, as agências totais de socialização e todos os mecanismos de repressão da sagrada família conseguiram limpar todo o cérebro de marilucy. ela estava limpa como um salão fúnebre. a vida não possuía qualquer nódoa de tesão e mistério: uma casa mobiliada e asséptica, um marido - maridão romântico, cafajeste e canalha, claro - (trepadas homeopáticas com luzes apagadas, sob o cetim) e programas do raul gil aos domingos. a vida, assim, era mais do que perfeita. era insossa e terrivelmente segura.

    então marilucy falava: "você não é romântico, nunca me mandou rosas, nunca me carregou no colo, nunca diz que me ama!", e eu concordava balançando a cabeça. isto é, como todo desesperado que precisa urgentemente se agarrar a alguma coisa, a estupidez também me enternecia. daí nos momentos de lirismo compulsivo, eu chamar marilucy de "minha macabéa". ela se irritava. tinha certeza que a tal clarice lispector era minha amante. ficava puta, a cretina.

    a minha salvação, como não poderia deixar de ser, foi um príncipe encantado.

     

     

    ocorre que marilucy - isso às custas dos programas de rádio am, hebe camargo, ofertas do pão de açúcar e manhãs putrefatas com ana maria braga - cultivava a memória de um príncipe morto no passado.

    então marilucy me comparava ao seu príncipe com rosto de fábio assunção: "ele não era assim encucado como você! não vivia lendo livros que ninguém entende! não perdia tempo escrevendo besteiras sem sentido e nem falava palavras complicadas de dicionário! ele sim me pegava no colo e dizia que me amava!", e eu via o pássaro empalhado dos sonhos de marilucy ficar batendo suas asinhas de glacê mármore pelo quarto.

    a minha esperança era que o tal príncipe levasse marilucy pra sua floresta de florzinhas de plástico, anjinhos de porcelana, toalhinhas bordadas sobre os móveis, bichinhos de pelúcia, rosários e pôster do padre marcelo na cabeceira da cama, ela merecia isso.

    num final de tarde marilucy apareceu toda arrumada. ela havia reencontrado o seu príncipe. ele estava casado mas se sentia infeliz com a esposa. precisava desabafar com alguém e, por isso, havia convidado marilucy para o baile daquela noite (“sabe, jorge, gosto de você. mas você é muito esquisito, estranho e, pra ser sincera, só fiquei com você por causa do desenho da sua boca que é muito linda. bem, adeus”, ela me disse sem olhar nos meus olhos). “beleza!”, pensei fazendo cara de boi lavado.

    quero dizer, fiz a cena da despedida no melhor estilo de stanilaswisk, isto é, com todos os sentimentos aflorados e sob controle. o pessoal da central globo de produções ficaria boquiaberto com minha performance, pode crer.

    depois marilucy foi embora e tranquei cuidadosamente a porta. abri uma cerveja, acendi um cigarro, deitei na cama e fiquei fazendo bolinhas de fumaça contra o teto: "fodidos de todo o mundo, uni-vos!", falei sozinho, erguendo minha latinha de cerveja pru o alto, tão alegre e idiota como o último capítulo de um patético final feliz.



    Escrito por jorge mendes às 12h59
    [] [envie esta mensagem
    ] []


     

     
    [ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]