dragões de jorge
   
 
 

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    letra morta



    na minha batalha contra o mundo
    eu apoio o mundo.
    kafka

     

     

    não era o céu, não era a lua nem o rio de janeiro. era pra fugir da tempestade e ir morrendo aos pingos. era pra ser o sol nas cortinas, vasinho de plantas na área de serviço e não fúria dos becos. relâmpagos.

     

    não era beijo de língua. abismo. não era pra ser angústia, desespero e solidão. era pra ser frase feita de barzinho existencialista, olhares lânguidos, uma lance sujo e duas doses abaixo.

     

    horizonte algum.

     

    era pra ser indiferença, janela do décimo andar, controle-remoto, tecnologia e todo o lixo. era pra ser virtual e não sangue, esperma e saliva. não era kant. era kardec. não era lou reed. era mtv. era século 17, amor romântico, paisagem de sal, medo de voar e veludo.

     

    não era bílis no banheiro sujo, madrugadas e avenidas vazias. não era paulo leminski. não era poesia. não era cachaça no boteco da esquina. era suco de clorofila, máscara, mentiras.

     

    vídeo-clip.

     

    era pra ficar quieto, natimorto, com um sorriso cínico no rosto de cachorro otário, otário.

     


    não era michel foucault. era só vigiar e punir. não era pra ser sede de azuis cortantes, fome de ruas, vôo e queda livre. não era pra ser friedrich nietzsche e cair dançando. era pra ser culpa, dissimulação. não era a estrela do futuro era o amor virado com a cara pra parede. não era o verbo encantado do torquato. era silêncio, o frio dos desertos.

     

    não era álcool forte era café.

     

    se liga, não era desejo, gozo, o impossível. era ioga, homeopatia. também não era itamar assumpção, jacques lacan, derrida. era pra ser gelo, teatro de rua, comédia infanto-juvenil pra boi dormir. era pra ser nenhum problema com as esquinas, nenhum fogo no labirinto dos olhos, nenhum incêndio na ponta da língua.

     

    escuta: não era à deriva. era fixo no mesmo lugar.

     

    era pra ser ilha de edição e não multidão, primeira do plural. era umbigo e não coletivo. era pra ser narciso e não espelho quebrado. nenhum grito de sganzerla, nenhum grilo. fade. era pra ser passivo. limo. cadáver se alimentando de flores de plástico e artes práticas. era pra ser masturbação e não língua na nuca, dente na carne, sangue, gozo aéreo.

     

    era pra ser zibia gasparetto e não ferdinand céline.

     

    quer saber, era pra terminado a pós e não viajado pru nordeste. era pra ter ficado rico, loiro. era pra ter virado zumbi. não era pra morder a maçã nem ter encarado os olhos da serpente. era pra doar sangue na agência bancária mais próxima. era pra ser filhodaputa até quando diz obrigado ou eu te amo. era pra ter merda no coração e ser o rei da galera, idiota.

     

    não era rimbaud, entenda.

     

    era concurso público. o assassinato da flor. sociedade anônima. não era pra ser erro constante, negro gato na chapa. era pra ser deus da tribo, mercadoria. não era pra ser pulso aberto, soul, samba de cartola. era pra ser circo, ópera bufa.

     

    e, sobretudo, não era pra ser literatura, jorge.



    Escrito por jorge mendes às 23h13
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